Leitora na Pista: Diário da Patagonia Run, por Derlayne Detroz

Patagonia Run

Diário da Patagonia Run

Por Derlayne Detroz
Advogada, moradora de Joinville

Foram seis meses de preparação para que fosse possível fazer minha Primeira Meia Maratona de Montanha – Patagonia Run – na cidade de San Matín de Los Andes, localizada na província de Neuquén, nas margens do lago Lácar, na Argentina. A prova oferece distancias de 160k, 100k, 70k, 42k, 21k e 10k.

Antes faço um parêntesis para indicar que não sou daquelas que me lesiono correndo, minha situação foi inversa, pois comecei a correr depois de duas cirurgias no joelho em história que as lindas do Mulheres na Pista já postaram no blog. Confesso que, desde que comecei, com muita disciplina, os desafios fazem parte do Pacote de Felicidade que a Corrida me proporciona e minha qualidade de vida melhorou muito apesar dos constantes acompanhamentos de médico, personal, treinador, osteopata (sim, eles fazem parte da minha rotina).

Quando me inscrevi nesta aventura, avisei as meninas do MNP e a Carol já solicitou que para eu fazer um diário de viagem. Pois bem… aí está a pura emoção de sair do País para correr e realizar um sonho.

5 de abril de 2018 – primeiro dia

Treinos realizados, aí vou eu. Pausa em Buenos Aires. San Martin espera que estou chegando. Fui recebida com temperatura de 5ºC – para sentir na pele que o sonho estava se tornando realidade…

Primeira dica: mala de mão com tudo que você vai usar na corrida. Murphy é um cara que aparece por aí e não queremos ter qualquer imprevisto, né?!! Mochila de hidratação, tênis de trilha, luva, apito, corta-vento, blusa para neve etc. (corrida de montanha exige uma série de itens obrigatórios como a Deia já comentou no post do Araçatuba, então não vacile).

Patagonia Run

Saí da área de desembarque e já localizei uma placa de “Transfer Patagonia Run” – que eu não comprei nem tinha pesquisado. Mas sem sufoco, porque tinha ali na hora uma empresa de turismo prestando o serviço. A van me levou para o hotel e fiquei radiante por ter recebido um chocolate especial para os atletas na hora do check-in (que carinho, que cuidado!).

Patagonia Run

Larguei a mala e fui buscar meu número do peito. Felicidade ao ser atendida por uma brasileira que colocou uma fita em meu braço – que tínhamos que usar até o fim do evento (eu usei até retornar ao Brasil… rs.). O frio na barriga só aumentava, porque lá fiquei sabendo que a meia maratona que tem 21.097k teria como meta 22,8k.. ok coisas normais em provas de montanha, o negócio encarar o desafio com uma surpresa a mais.

Patagonia Run

De número no peito na sacola era necessário ir em outro lugar buscar o kit e fazer o registro da foto gratuita, que fica disponível no site do evento (detalhe: no kit vinha uma meia, protetor labial, revista, carbogel, lenço umedecido e bala de goma). Tanto se fala em kit e produtos, mas eu achei tudo lindo e sei que o valor da inscrição compreende uma experiência única, além de toda a estrutura, eu simplesmente estava amando tudo.

patagonia run

6 de abril de 2018 – segundo dia

Por recomendação do meu instrutor de corrida, era dia de correr por 35 minutos para soltar a musculatura, relaxar e também sentir a questão do frio e da altitude. Gente, meu corpo sentiu muito a diferença de tudo. Confesso que foi um treino essencial para que no dia seguinte tudo fosse melhor. A paisagem já era de tirar o fôlego e o a emoção estava ali em cada parte do meu corpo. Neste dia, San Martin estava completamente invadido por atletas, para todos os lugares que você olhasse notava todo mundo usando tênis e suas fitinhas no pulso indicando a distância. E eu morrendo de medo da minha meta de 22,8k que não me abandonava. Você respira corrida na cidade até porque ao meio-dia foi a primeira largada do pessoal dos 160k. Ah! Alguns restaurantes chegam a dar desconto aos atletas, fui num destes para usufruir do benefício, né?!!?

Patagonia Run

De treino feito e carbo ingerido, decidi passear pela cidade e caminhei por tudooooo. É um vilarejo, e conheci o que tinha por ali. Feito isso, necessário fazer um bom jantar encarando os 3 ºC na rua e finalmente é chegada a hora de descansar. Antes de dormir, arrumei tudo com o coração na boca, revisei 500 vezes para ver se estava tudo ali. Feito isso, tentei dormir, né?!?!

Patagonia Run

7 de abril de 2018 – terceiro e Grande Dia da Patagonia Run

Pulei da cama em um pulo só, superanimada. O hotel prepara um café especial para os atletas com ovos cozidos, mexidos etc. e em horário diferenciado. O pessoal dos 22,8k tinham que estar às 8 horas no Escritório Central para o transfer levar até o local da largada. Isso porque a largada de cada distância era em local diferente. Foi tudo muito pontual e organizado. Às 8h30 já estávamos no ponto de largada, com água, isotônico e balas. Conheci uma brasileira e ficamos conversando, trocando experiências (o que tem em todaaaa corrida – seja de rua ou trail). Para nossa surpresa, descobrimos que pouco antes da nossa largada, que foi pontualmente às 10h da manhã o ganhador dos 160k já tinha chegado (inacreditável, ele fez menos de 22 horas de prova!!!).

Patagonia Run

O frio era cortante – mais ou menos 2ºC -, mas tirei o casaco de neve e deixei no guarda-volumes (que é transferido para o escritório central lá no centro da cidade, pertinho da linha de chegada). Fui para o funil sem entender direito o frio que seu corpo está sentindo com a aceleração do coração. Coração acelerado e mãos geladas. Contagem regressiva iniciada eeeee – Ai Melll Dellls eu estou aqui e agora tenho 22,8k na montanha para fazer!?!?!?!? – Como digo sempre, segura nas mãos de Deus e vai com o pensamento apenas na felicidade por estar ali, de querer curtir cada metro e de viver para aquilo que você se preparou e tem muita gente torcendo e até acreditando mais em você do que você mesmo.

Aqui fica a referência a um erro na minha largada. Corrida de montanha tem Single track. Não sou ligada em pace ou tempo, mas gosto de impor o meu ritmo. Porém como não confiei muito em mim, larguei lá no final para não atrapalhar os outros, e por conta disso obviamente fui atrapalhada. Os atletas não deixavam passar de forma alguma. Neste ponto todos os atletas falavam a mesma coisa “paciência”, “curte a paisagem”, “esqueça de tudo” – foi assim por 3,5k caminhando. Até o km 7 fiquei na velocidade dos outros, mas tudo bem, não é momento de estresse. Então… bora registrar o lindo caminho. Pasmem: quando peguei meu celular para fazer fotos do percurso ele estava congelado…rs… aquece nas mãos e pronto, fotos ok, registro feito. Bora ser feliz.

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Patagonia Run

Primeira parada no Posto de Hidratação: fila no banheiro e tive que ficar por lá, minha bexiga exigiu isso (foram 9’ parada). Aí bebi um isotônico, comi algo e o que me salvou foi o hidratante labial que estavam distribuindo, vinha no kit, lembram?!!? Eu achei que era brinde, mas na real é item obrigatório no frio, gente…. #ficaadica novamente. Como era um ponto bem alto a temperatura que deveria estar em uns 7ºC baixou muito na trilha fechada, tinha gelo no chão e tudo, o mato todo branquinho na famosa ‘geada’. Neste momento era adeus ao glamour, pois nariz escorre mesmo (de todo mundo), tive que calçar novamente as luvas e respirar como dava… A partir daí consegui fazer o meu ritmo em mais trechos e foram muitas subidas. O bom das subidas é que com certeza haverá descidas (a altimetria da prova foi de 1.300mts). No meu caso ainda estou aprendendo a técnica para ter coragem e velocidade, mas no curso da prova fui ganhando confiança. Comecei a ter momentos de corrida solitária no meio das trilhas. O famoso encontro comigo e hora de refletir sobre toda a jornada e viajar num mundo perfeito cheio de felicidade e emoção.

Patagonia Run

Quando vi, estava no km 18 e então lembrei da Meia Maratona de Joinville (ali foi um divisor de águas e puro sofrimento até acabar). Na Patagonia Run não, a sensação era de “Está acabando?!!? Nãoooo!!!  Quero mais disso, muito mais”. Você encontra moradores no caminho e eles falam: “Força, só mais 3km”. Segue o baile indicando que falta 1,5k e então escuto que faltam 500 metros com a sequência de “Está bem pertinho, vai, parabéns”. Na minha mente era apenas “Não quero que acabe! Estou feliz por estar aqui, eu consigo mais, eu consegui realizar meu sonho, deu tudo certo, foi lindo. Sério que vai acabar?!?!?!” Acaba a trilha e você vira numa quadra e a rua da chegada com a indicação de que faltam 300 metros.

Para tudo!!! Tira a bandeira do Brasil da mochila e vibra, as pessoas te olham e gritam “BRASIL!!!” A força nesta hora é imensa. São 300 metros de funil de pessoas assistindo, torcendo e vibrando, te aplaudindo, e para mim ainda falavam “Vai Brasil”… Meu coração acelerou… Levantei a bandeira… Engoli o choro… Abaixei a bandeira… Coração a mil…

Patagonia Run

Segue correndo e duas crianças, uma de cada lado dão as mãos para que você bata nelas ao som de aplausos e “vai Brasil”. Engoli o choro porque a meta era chegar viva e feliz no tempo que fosse… Levantei a bandeira, sorriso estampado no rosto e assim cruzei a linha de chegada ouvindo “Brasil nos 21k” … Ahh, agora, DD, você pode deixar a emoção transbordar e chorar sem medo de ser feliz…

Sensação única e incrível que não sei como escrever neste post. Chorei e sorri por uns 20 minutos na rua, enrolada na bandeira. Aí fui buscar meu casaco e fui para o Hotel. Meia Maratona de Montanha concluída com sucesso, meta de 22,8 k com sensação de vitória nas minhas 3h30 de prova, colocação de número 170 de 401 mulheres (para quem se importa com números).

Patagonia Run

A foto olhando para o céu com bandeira na mão foi o sinal de gratidão, agradeci muito a Deus pela conquista e agradeci a todos que estavam comigo neste momento, muitos não sabem, mas cada um estava do lado de dentro e fez a diferença antes, durante e até eu cruzar aquela linha de chegada explodindo de felicidade e emoção.

Se você tem um sonho, só cabe a você lutar por ele. Nunca pense em parar.

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