Leitora na Pista: Juliana Martins, de Joinville

E1570823-995A-4DCE-8444-C48023344257

Por Fernanda Lüttke

Disciplina é uma das melhores palavras para definir a corredora joinvilense de 41 anos Juliana Monteiro Ferreira Martins que se prepara para correr a edição 2015 da Maratona de Boston, nos Estados Unidos.

Por isso fui conversar com ela para saber da preparação e de como surgiu esse amor pela corrida.

Fernanda: Juliana, como começou a correr maratonas?

Juliana: Eu tenho e feito em média duas maratonas por ano já tem uns três anos. Então eu gosto muito de correr, eu gosto muito de treinar. Pra mim é gostoso, tô sempre treinando bastante. Quando termina a maratona eu fico uma fase cansada. Mas aí passa uns dois, três meses, e eu já tô louca para treinar de novo. Então eu gosto. Pra mim, acaba sendo um estilo de vida. Até falei que ano que vem não quero fazer duas. Só quero fazer uma, porque em setembro vou fazer a de Berlim, se Deus quiser. Eu já comecei a sentir um pouco do desgaste.

E como começou a correr?

 Juliana: Eu até gostava de ir pra academia, jogava squash na época, e odiava correr. Quando conheci meu marido ele já corria um pouco, eu tentava acompanhá-lo e odiava.

Mas com um filho de sete meses eu precisava de alguma coisa que fosse fácil de fazer, que eu pudesse sair de casa e voltar rapidinho. Você perde muito tempo indo para academia. Então eu saía e em meia hora, entre corrida e caminhava, já estava de volta e já tinha feito um exercício. E os treinos eram na hora que eu podia sair.

Pra mim, o legal da corrida é colocar objetivo. Eu comecei a correr e disse que dali a um ano ia correr uma meia maratona.  Queria fazer a Meia Maratona do Rio, mas até hoje não fiz. Botei o foco lá na frente, grande. Eu não tinha treinador, sabia que ia demorar. Mas depois de meio ano eu percebi que precisava treinador, pois sabia que não ia conseguir sem treino específico. Na época, eu morava em Campo Grande. Daí comecei a correr com treinador lá e acabei tendo que vir morar em Joinville. Então acabei fazendo minha primeira Meia Maratona dois anos depois, porque naquele ano eu ainda tive que fazer uma cirurgia.

No outro ano eu fiz a primeira meia, em Buenos Aires. Daí, fui fazendo as meias, prova de aventura que eu achava legal, e aí quando eu fiz 10 anos de casada, meu marido falou queria comemorar fazendo uma maratona, bem legal, né? (risos).

Ele disse: “Já que é nosso aniversário de casamento, vamos viajar e eu quero aproveitar para correr a Maratona de Chicago”. E perguntou: “Você quer correr ou vai só de acompanhante?”. Eu pensei: “Maratona é muita coisa, não vou dar conta de correr uma maratona. Só que eu tenho certeza que se eu não for eu vou chegar lá e vou me arrepender de não ter feito”. Aí eu falei: “Tá, me inscreve”. Então eu comecei a treinar. Para essa primeira maratona, esse primeiro treino, eu sofri bastante. Foi bem puxado, porque você parte de um nível de treino para algo muito grande. Mas aí depois de um ano já fiz outra. Hoje eu gosto, sinto falta quando não tenho um treino grande.

E se você acha que conseguiria chegar a esse nível, correr tanto se não tivesse treinador?

Juliana: Não. Sozinha não. Tu pode até tentar sozinha, mas eu não. Eu preciso de um treino, preciso confiar no meu treinador. Eu sou muito disciplinada. Se ele me dá uma planilha de treino, eu faço exatamente o que está na planilha. Confio no trabalho dele, sigo o que ele me fala.

E eu pergunto tudo pra ele: “Ivan (Razeira), esse tênis é bom, mas eu tô na dúvida se uso ele na maratona”– há doze dias da prova eu ainda não sabia que tênis usar. Ele colocou o tênis e disse que era bom, mas era seco. Então eu não vou fazer a prova com esse tênis.

Então tem que ser um tênis bom porque depois do km 30 já vai ser difícil. O teu psicológico que entra em ação.

E como você trabalha esse psicológico pra não desistir?

Juliana: Desistir tu não vai. Tu tem que ficar fazendo vários mantras, eu pelo menos fico pensando num monte de coisas. Aí, quando chega no final, eu penso quantas voltas tem na pista, quantas voltas faltam para eu chegar. Aí fico visualizando a pista, pensando cada minuto.

(E daí eu falei para a Juliana que faço a mesma coisa, penso na distância que falta e penso, em pistas de atletismo que tem 400 metros, quantas voltas faltam).

Eu fico pensando em alguma companheira de treino falando: “Vai Ju!!”. Aí fico mentalizando. Penso em outra, e depois outra. Eu brinco com elas que eu dedico cada tanto da maratona pra elas, pois me dão muita força durante os treinos.

Mas cada maratona é uma maratona. Eu não crio expectativas. Há pouco tempo eu ainda nem tinha certeza que eu ia. Fiz uns exames e descobri que tenho hérnia de cervical. Até por isso quero segurar um pouco. Fiquei um mês sentindo muita dor. Eu não sentia dor correndo, mas na natação, sim. Fiquei com medo de também machucar no avião. E meu amigo, que sempre corre comigo, também não estava muito bem, no verão era muito quente pra treinar. Todo sábado que a gente saía pra fazer longo… Nossa! Aquele treino não terminava nunca. Então todos os treinos foram desgastantes… e a gente dá uma desanimada.

E lá em Boston tava nevando. É isso. Tu não sabe o que vai encontrar quando chegar lá. Pode ser que vire o tempo, que chova. Tem gente que brinca que não vai comigo em nenhuma prova, porque eu fui pra maratona de Nova Iorque, que foi quando deu aquela tempestade Sandy e a prova foi cancelada. Eu já estava lá, já tinha pego o kit, comprado várias coisas da prova, jaqueta, camiseta. E sexta-feira, cinco horas da tarde a prova foi cancelada. Eu tinha levado meus filhos, meu marido estava junto. E esse meu amigo estava lá com a esposa. Então a gente pensou: “O que vamos fazer?” Vamos correr! A gente corrida todos os dias de manhã cedo e depois passeava. Quando eu voltei, pensei: Treinei pra uma maratona e não vou perder o treino sofrido. Aí 15 dias depois tinha a Maratona de Curitiba, me inscrevi e fiz.

Prefere treinar acompanhada?

Juliana: Poucas vezes eu treino sozinha. Sempre que eu posso treino acompanhada, com meu amigo, outra amiga. Eu prefiro. Para a maratona de Chicago a gente sempre treinou em grupo e na prova a gente sentiu falta um do outro. Nesta agora, em Boston, nós vamos largar juntos. Eu pretendo fazer a prova junto com ele. Ele não está tão bem treinado, teve uma lesão no fim do ano passado, mas eu pretendo fazer com ele, até porque na outra vez de Chicago eu não estava bem e ele correu comigo a prova inteira. É muito mais legal fazer a prova com alguém, se divertindo, porque as provas lá fora são muito legais. No percurso inteiro há gente aplaudindo dos dois lados. Sempre tem algo legal acontecendo. Quando tu corre sozinha tem que trabalhar muito mais a cabeça. E eu tenho que ter com quem conversar, eu passo quase a prova inteira conversando.

Você acha que treinar e correr em grupo é bom? Um incentiva o outro?

Juliana: Sim, um passa e diz: “Falta pouco! Vamos lá!”. O tempo passa até mais rápido. E eu faço isso porque eu gosto. Tem que ser uma coisa gostosa. A partir do momento que não for mais bom, eu não faço mais. Eu não vivo disso, então é uma coisa que eu faço para me dar prazer.

Você participou da Maratona de Boston em 2013, quando aconteceu o atentado. Como foi?

Juliana: Eu já estava no hotel, graças a Deus. A prova foi ótima.  Terminei e fui pro hotel. Quando eu estava no quarto, falando com o meu marido, com os meus amigos, um amigo perguntou, pelo Facebook, sobre a bomba. Perguntei: “Que bomba?” E ele falou que tinha acabado de explodir uma bomba. Estavam a minha mãe e minha irmã comigo e ligamos a TV. Ainda bem que eu já tinha falado com o meu marido e ele sabia que eu estava bem. Começamos a ouvir sirenes, meu telefone começou a tocar e eu decidi que não iria mais atender, porque já havia falado com o meu marido. Já estava todo mundo tranquilo. Aí a gente tinha combinado de encontrar com esse meu amigo, ele estava no hotel do lado. A gente desceu e parecia um cenário de guerra. Fui pra quadra do lado e vi o caos total. Eles não deixaram entrar no hotel do meu amigo nem falar com ele. Disseram pra eu ligar pra ele, porque no hotel só entrava hospede. E a gente precisava comer. Então fomos ao restaurante bem em frente ao hotel. Não dava pra andar, porque nem sabíamos direito o que estava acontecendo. Ficamos por ali e depois voltamos pro hotel.

P4150768

Foi uma pena ter acontecido este atentado, porque é uma prova muito bonita, muito tradicional, tem uma festa bem grande, e a cidade ficou completamente em luto. Eu já tinha chegado, mas teve muito corredor que não conseguiu terminar a prova. Agora imagina que depois de tanto treino, tu vai correr e não consegue terminar… Vi relatos de muitas pessoas que estavam correndo e no meio do percurso encontraram uma barreira. Para eles falaram que não podiam passar, porque havia ocorrido um atentado na linha de chegada. Essas pessoas tinham parentes na linha de chegada… Então bateu um desespero nos corredores. Imagina? A família deles na linha de chegada e tu, corredor, não podendo passar…

Teve muita gente que ficou vagando na cidade, gente que caiu… Foi muito triste. E a gente tinha deixado tudo pra fazer depois da corrida, e estava tudo bloqueado, tudo fechado. A gente usava a medalha no peito, a gente sempre usa depois da prova – aqui no Brasil não se tem muito esse hábito – lá se usa muito a medalha depois da prova. Então essa medalha dava muito mais orgulho de usar.

Algumas pessoas não conseguiram pegar a medalha e os organizadores até falaram que pegarem depois. Então você via as pessoas com aquela medalha, chorando… Ela tinha um significado muito forte. Foi muito triste. Quem fez a prova naquele ano, no ano passado podia ir sem qualify. Eu fiquei meio assim de ir, mas hoje me arrependo de não ter ido, porque acho que a festa foi muito legal.

5D38FE12-2218-4571-A82E-ADAB03DDE5F8

Depois disso, todas as maratonas consideradas “major”, acabaram tendo muita mudança, reflexo do que aconteceu em Boston. Eu recebi um envelope com as instruções deste ano. Avisam desde onde pegar o número de peito até que lá você não pode carregar nada. Antes você podia levar uma mochila. Hoje, no fim de semana da prova, não pode usar mochila, um monte de coisa. Lá na chegada tem um ônibus que te leva até a largada e você vem correndo até o centro da cidade. As pessoas antes levavam saco de dormir, cobertor… só faltava levar barraca, porque lá é muito frio e a prova demora. Você fica uma hora, duas horas esperando.

Hoje em dia não pode levar um casaco pesado, porque não pode cobrir a cabeça. É complicado. Mudou tudo. Na maratona de Nova Iorque tudo também está diferente. E é triste, porque é uma coisa superlegal. O suporte que eles deram pros corredores após o atentado foi impressionante. No aeroporto, pra todos os corredores eles deram prioridade. Nos trataram superbem, e mandavam e-mail a toda hora perguntando se precisávamos de tratamento psicológico.

Para as pessoas que estavam assistindo e se feriram, o governo deu prótese e criou um programa de treinamento para quem quisesse correr uma maratona. Tem uma estrutura muito grande lá e eles falaram que graças a essa estrutura, às ambulâncias e aos médicos é que conseguiram salvar tanta gente.

9FC569D3-3FF4-4151-811A-DDE876E4D382

Você está voltando pra lá por causa dessa tua história com a prova ou tu gosta de correr lá?

Juliana: É uma prova que é top, por causa do qualify, tu só vê gente top. Então é uma prova interessante. Uma prova dessas fora do país, ou tu consegues por sorteio, ou tem que comprar por agência, o que é supercaro. Como pra Boston eu tenho o qualify, eu me inscrevo, compro passagem, hospedagem do jeito que eu quero… é mais fácil. Eu queria fazer Londres, mas é superdifícil. Fui entrar pra inscrição do sorteio e já não tinha mais vaga.

Aí meu amigo se inscreveu pra Boston e eu falei que também quero ir.

E no Brasil, tem alguma maratona que sonha em fazer?

Juliana: Não, tem até várias provas legais aqui no Brasil, como uma prova de aventura em Fernando de Noronha. É que o público brasileiro é um pouco diferente. Nessa de Curitiba que eu fiz o pessoal buzinava, ficava xingando os corredores porque queria passar e o trânsito estava fechado. Então desanima um pouco.

(Eu entendo a Juliana, pois já passei por isso).

Meu marido fez trechos da Maratona de São Paulo. É bem organizado… quem sabe um dia. Mas eu gosto de conciliar a viagem legal com a corrida. Vai, corre, passeia. Tem que ser legal!

Pra quem está começando, que dica você daria?

Juliana: Eu falei hoje pra uma menina que trabalha comigo e que começou a correr e já havia dito isso pra outra amiga. “Olha, tem que ter disciplina e não ficar desistindo, porque o começo da corrida não é fácil.” No começo dói. Até tu pegar ritmo, pegar pace, dói, incomoda, tu não tem fôlego, acha que vai morrer. Daí tu começa, na hora que tu tá pegando ritmo, te deu preguiça, choveu, aí tu falta. Para dois, três dias e aí tu não corre uma, duas semanas. Para essa minha amiga eu falei: “Sabe por que é ruim pra você correr? Porque você está sempre começando. Quando você começa a ficar bem, você começa a faltar”. Hoje ela já está treinando para meia maratona e já me disse que eu estava certa. Agora ela dá jeito de treinar, já passou esse começo chato. Tem que ter disciplina. Minhas amigas sabem que sou disciplinada até demais. Mas tem que treinar. Às vezes eu acordo no sábado com preguiça, mas não deixo de ir fazer meu treino. No fim, mesmo treinando mal você fica bem. O sentimento de não ter ido treinar é pior do que ter feito um treino médio.

 

mulheres na pista

3 thoughts on “Leitora na Pista: Juliana Martins, de Joinville

  1. parabens pela reportagem e oportunidade de mostrar o trabalho, dedicação e disciplina que os corredores de rua tem que ter para superar os desafios e principalmente para as mulheres que mesmo tendo inúmeros outros afazeres, ainda conseguem tempo para treinar, parabéns para Juliana que é uma guerreira e exemplo para todos atletas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *