Leitora na Pista: Ana Paula Gonçalves, de Floripa

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Por Carolina Spricigo

Contamos para vocês na semana passada sobre a realização do Beach & Mountain Challenge em Floripa. As Mulheres na Pista não foram participar do evento, mas isso não é um problema, pois temos uma superleitora, a jornalista Ana Paula Gonçalves, de Floripa, que foi incumbida de contar todos os detalhes da prova pra nós.

Como boa jornalista que é, ela adora escrever e contou muitos detalhes pra gente. Confira abaixo:

Estreia numa trail run: Praia, asfalto e trilha

Por Ana Paula Gonçalves,
Jornalista, 31 anos, casada e mãe do Bernardo
Fotos: Isac Cruz

A corrida de rua é uma paixão. Por ela a gente sente dor, prazer e se alguém te perguntar qual o sentido de correr até uma certa distância e depois voltar, a gente responde: “Você me pergunta isso porque nunca correu”. A corrida surgiu na minha vida há quase dois anos, quando meu filho tinha apenas três meses e eu estava vivendo um período sério de reeducação alimentar e precisava incluir a atividade física.

Eu comecei a correr em 2013, meu marido, Isac, alguns meses antes. Fomos convidados por amigos que também tinham se tornado atletas amadores há pouco, todos integrando a equipe Floripa Runners. Na época eu seguia meu plano alimentar e minha planilha de treinos com uma disciplina surpreendente. Comecei em junho, corria à noite. Começava o inverno e eu não tinha desculpa: com chuva, vento e até com menos de 10 graus eu já corri. Essa determinação me fez, depois de um ano, perder 35kg sem uso de nenhuma medicação, apenas com esforço, que aprendi e trago comigo até hoje.

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Neste período já fiz algumas provas, todas no asfalto. A emoção da corrida é uma sensação muito boa. Mesmo quando a gente corre no mesmo lugar onde treina, é sempre diferente. Infelizmente a rotina muito atarefada, com a volta ao trabalho, os cuidados com a família e todos compromissos, não consigo mais ter tanta regularidade nos treinos, mas quando passo por alguém correndo eu penso “eu queria estar ali, agora!”.

Meu treinador, Fabiano Braun, é um dos maiores incentivadores. Sempre motivando a equipe leva seus atletas a níveis desafiadores, como as provas que envolvem as corridas não só no asfalto, onde a gente pode aproveitar a natureza de uma praia e das trilhas. Já fiz alguns treinos de reconhecimento dos trechos do Mountain Do – Lagoa da Conceição, que a Floripa Runners organiza todo ano antes da prova oficial, e achei fantástico correr em condições tão diferentes.

Assim, descobrindo que a corrida sempre tem mais para oferecer, aceitei o desafio do técnico e fui correr o Beach & Mountain Challenge, o maior festival multiesportivo do sul do país, realizado pelo segundo ano em Floripa, dia 2 de maio.

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Fazia tempo que meus treinos não passavam de 4km. A prova tinha trajeto de 7km, e eu pensei: “não tenho porque temer. Vou pra passear. Se precisar eu caminho, não posso perder essa oportunidade de correr num lugar tão lindo quanto o Pântano do Sul”. Para me acompanhar nesta tarefa avisei ao marido que ele teria o compromisso de me acompanhar, num ritmo bom para completar a prova em 1 hora.

Na sexta, véspera da prova, a ansiedade boa já começou: preparar a roupa, tênis e acessórios para o desafio, planejar a janta, café da manhã e dormir cedo (nossa maior dificuldade em casa). Sábado, 6h20 o despertador tocou e a energia surgiu na mesma hora!

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Partimos para o Sul da Ilha com um amanhecer belíssimo, sol maravilhoso, temperatura amena. Perfeito! A tenda da Floripa Runners estava montada. Foram 45 atletas inscritos pela nossa equipe, alguns fizeram os 7km e outros 21km. Uma das coisas mais legais de correr em equipe é conviver com atletas de todos os níveis, de quem é ultramaratonista até quem está começando. Essa troca de experiência é essencial pra motivar.

No percurso fui apreciando aquela paisagem, sentindo os diversos cheiros do caminho, da praia, depois das vacas e do campo. Passamos bem na hora por um lugar onde estavam cuidando de um terreno, a poda de grama nos fez sentir os aromas frescos e também cheios de ervas.

Quem já fez prova ao meu lado sabe que eu vou pra me divertir. Converso, brinco com os fotógrafos, falo com as pessoas da rua, incentivo outros participantes e vou sorrindo, acho que é por isso que não corro mais rápido, porque não tenho uma estratégia de superação (o que sempre acaba acontecendo), eu vou curtindo cada quilômetro por onde passo. E nessa prova, especialmente, não foi diferente.

No caminho corremos ao lado de alguns atletas com necessidade especiais, como os deficientes visuais e um menino de 17 anos, o Vinícius, que tem uma deficiência no pé. Ele estava correndo na nossa frente acompanhado do pai. Quando o vi, quase completando o segundo quilômetro, pensei que ele sim estava se superando. Eu estava apenas fazendo o que meu corpo espera de mim e buscando viver melhor.

Ele foi uma grande motivação para não desistir, não caminhar, como eu tinha planejado inicialmente. Mas o principal combustível foi meu marido que não me deixou parar.

Caminhar foi inevitável numa subida bastante puxada, um morro consideravelmente alto me fez ter justificativa para diminuir o ritmo, e para respirar mais fácil, mas em seguida já voltamos a correr. Depois de chegar na praia dos Açores chegou a vez de vencer a trilha, com bastante pedra e lama, uma distância relativamente curta, mas que precisava de atenção. Nesta hora o Isac ajudou o Vinícius e o pai dele no trecho, afinal, o menino tinha um pé firme, o outro não. E foi bonito ver como podemos ser felizes ajudando quem precisa.

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Depois de deixar os tênis brancos bastante sujos, hora de correr pela praia: vento contra, sol no rosto, barulho das ondas, uma beleza! Esse contato com a natureza é estimulante, bem melhor do que correr respirando a poluição das pistas do Centro, por exemplo.

Nos últimos dois quilômetros eu já estava entregando pra Deus as minhas pernas, fui cantando e dizendo “Senhor, em ajuda, a força agora é tua”, porque a caminhada durante a trilha, onde não tinha como correr, deixou as pernas travadas.

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O Isac olhou o relógio e avisou “vamos lá, terminar essa prova em 1h, como tu queria!” eu perguntei se daria, ele disse que sim, então continuei no ritmo. Nessa hora percebemos que eram mais de 7km, foram 500 metros a mais, o que fez com que a 1 hora de prova fosse ultrapassada, mas cruzamos a linha de chegada com 1h05min, uma tremenda alegria!

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Chegar e receber a medalha, comer uma fruta, tomar água e sentir que venceu mais um desafio é a melhor parte do esporte, por isso uma paixão. Durante o trajeto pode dar vontade de parar, às vezes pode doer, mas no final eu nunca me arrependo. Voltamos pra casa, encontramos nosso filho, mostramos as medalhas e demonstramos pra ele como é importante ter algo do que se orgulhar.

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Por mais corridas, mais provas e mais medalhas!!

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