Não foi acidente: sobre tragédias que nos matam todos os dias
Este texto que vocês leem agora está entalado na garganta há três dias, desde que eu soube da morte do jornalista, empresário, corredor e ciclista Róger Bitencourt atropelado enquanto pedalava com um grupo de amigos na SC-401 no último domingo (27). Não foi acidente. Moro nesta rodovia, mas estava fora da cidade no dia do ocorrido.
Não conhecia o Róger tanto assim – nos falamos duas vezes, a última foi em outubro, quando do falecimento de um cliente em comum entre as nossas empresas – mas o admirava. Senti um soco no estômago, uma sensação de que eu também havia morrido um pouco ao ler a notícia no Facebook do meu amigo e colunista Carlos Damião, do Notícias do Dia. Não foi acidente.
Morri um pouco porque vi um homem cheio de vida, de planos, de metas e de saúde perder a vida. Porque vi uma linda, inteligente e jovem mulher perder o marido e mais ainda porque vi três filhos perderem o pai, incluindo uma garotinha de seis anos. Porque vi amigos sofrendo. Morri um pouco porque revivi uma história que infelizmente faz parte da minha vida há 30 anos e que, também infelizmente, continua a se repetir. Assim como o Róger, outras tantas pessoas já perderam a vida nas rodovias por causa da imprudência de motoristas irresponsáveis. Não foi acidente.
Não foi acidente
Fazer campanhas, fazer pedidos, implorar, dar exemplos de vida e dizer o quanto é sofrido perder alguém por motivos estúpidos e possivelmente evitáveis não tem adiantado. É por isso que vemos mais e mais mortes nas rodovias estaduais e federais. Não que este seja o caso, mas pessoas continuam bebendo e dirigindo, usando drogas e dirigindo, metendo os pés no acelerador inconsequentemente e pior… falando no celular e digitando e dirigindo. Quando acontece isso, não é acidente. Como neste caso, não foi acidente.
Manifestação por segurança
Na manhã desta quarta (30) participei de uma manifestação no pedágio desativado da SC-401, quando mais de 700 pessoas – amigos, ciclistas, corredores de rua, maratonistas, assessorias de corrida – pediram por mais segurança no trânsito.
Sei que precisamos ser a mudança que queremos no mundo. Então aqui em casa ninguém dirige acima da velocidade permitida na rodovia, ninguém bebe e dirige – eu, inclusive, sou sempre a motorista da rodada -, ninguém dirige falando no celular. E sempre que eu posso, passo isso para frente. É minha maneira de tentar mudar o mundo.
Que especialmente neste período de festas na Ilha possamos treinar – óbvio que com cuidado redobrado – e que sejamos respeitados pelos motoristas.
Que tenhamos mais locais seguros para treinar em todos os dias do ano. Que tenhamos motoristas conscientes. Que tenhamos mais fiscalização das leis de trânsito. Que tenhamos mais blitze da lei seca.
Que em 2016 não tenhamos que noticiar/presenciar amigos/conhecidos/atletas morrendo pela irresponsabilidade de motoristas que não valorizam a própria vida nem a de ninguém. Amém.





Lindo texto Carol!
Olá.
Morei em Floripa por 15 anos e sempre que saía para treinar nessa rodovia não sabia se voltaria pra casa. Por várias vezes presenciei motoristas no domingo de manhã cambaleando na rodovia, numa das vezes parei no pedágio e avisei os policiais, que me disseram que não tinham o que fazer pois não tinham viaturas. Eu ainda disse: Por causa desse tipo de atitudes como a de vcs que pessoas como eu morrem.
Infelizmente campanhas não adiantam, só punição.
Ainda estou num grupo de whatsapp com amigos de Floripa e eles sempre estão passando informações um para o outro sobre blitz, e uma vez eu me meti e disse: Imaginem se vcs atropelam uma criança que poderia ser filho de vcs. Ficou aquele silencio, mas eles continuam fazendo. A cadeia é o melhor exemplo pra quem não entende a importância de não beber e dirigir.
Agora moramos em Joinville, e aqui parece que as pessoas são mais conscientes em relação a bicicletas, até pq tem ciclofaixas espalhada pela cidade toda.
Que Deus nos proteja todos os dias.