Entrevista: Gustavo Dudat e o renascer de um corredor; Cleiton Tamazzia e um exemplo de ser humano e o nosso desejo de Feliz Natal
Preciso contar uma coisa. Não faz muito tempo, pouco mais de 30 dias, eu estava meio chateada. Acho que era uma mistura de tpm com algum incômodo na rotina aliada à falta de treino efetivo de corrida e de uma evolução no tratamento para o meu quadril.
Minto. Não estava meio chateada. Estava muito chateada. Não sabia o que fazer. Ficava me perguntando como iria resolver, quem poderia me ajudar ou se dependia somente de mim.
Então, minutos depois de eu ter parado para refletir sobre um jeito de solucionar o meu problema, recebi uma mensagem no WhatsApp.
– Oi. Tudo bem?
– Tudo, e com você?, respondi.
– Estou bem. Olha que lindo está o dia para treinar.
E então eu recebi uma foto. Uma praia linda. Paisagem encantadora e um sol do meio-dia. Era uma foto parecida com esta. A que recebi eu não consegui recuperar no Whats.
Vi a foto e respondi:
– Nooooooooossa!
– Eu amo treinar na areia na hora do meio-dia – ele respondeu.
Levei um tapa na cara. Mais um. Um daqueles que doem de verdade e nos fazem ver que a gente reclama demais.
A mensagem era do Gustavo Dudat, um menino-homem-guerreiro que eu havia entrevistado alguns dias antes, pelo WhatsApp mesmo, para falarmos sobre a volta dele às pistas, desta vez a bordo da cadeira de rodas do projeto Pernas Solidárias, idealizado em Joinville e região pelo querido Cleiton Tamazzia.
Sim. Um tapa na cara de me ver triste pelos cantos por não conseguir correr tanto quanto antes e por ainda sentir dores no quadril. Enquanto isso, o Gustavo teve de abandonar as corridas e trocar medalhas e troféus por sessões de quimioterapia. Travou uma luta ferrada contra um câncer apenas dois ou três dias depois de perder o pai.
Do que eu estava reclamando? Por que eu estava reclamando? Enquanto ele estava chorando a morte do pai e lutando para continuar a viver, eu ainda podia – e devia – colocar minha roupa, um tênis, e sair por aí dar um trote intervalado. O meu retorno à antiga forma é uma questão de treino e de tempo.
O Gustavo ainda não pode fazer isso. Mas só por enquanto. Também acho que é questão de tempo. Logo, logo ele estará de novo com a gente nas pistas, porque ele é forte. É um vencedor. E porque ele é um cara que sabe viver é que merece muita saúde para viver muitos e muitos anos, percorrer muitos e muitos quilômetros e ganhar milhares de medalhas e mais uma infinidade de troféus.
Talvez por isso eu tenha demorado tanto pra escrever. Precisava digerir o golpe.
Obrigada, Gustavo. Por, de alguma maneira e mesmo sem querer, me mostrar o quanto eu preciso ter fé e agradecer pelo que eu tenho e pelas dificuldades enfrentadas. São elas que nos tornam mais fortes, não? Jamais vou esquecer disso. E jamais deixarei e ter um sorriso no rosto.
E porque eu tinha entrevistado o Gustavo para colocá-lo com destaque aqui no blog, quero que vocês leiam o nosso bate-papo.
Bate-papo com Gustavo Dudat
Gustavo Dudat: Oi. É o Gustavo que correu com o Cleiton. [Além de corredor, ele é pescador profissional. Ele mora na Ilha nas Flores, na Baía da Babitonga, em São Francisco do Sul]
Carolina Spricigo: Oi
Carolina Spricigo: Tudo bem?
Carolina Spricigo: Que bom que você me respondeu
Carolina Spricigo: Queria saber de você como foi voltar às pistas depois de algum tempo afastado
Gustavo Dudat: Maravilhoso
Carolina Spricigo: Foram quantos meses afastado?
Gustavo Dudat: 10 meses
Carolina Spricigo: E qual a perspectiva de voltar a correr de novo? Será com o Cleiton?
Gustavo Dudat: Na verdade, ainda não posso correr sozinho com minhas próprias pernas porque meu pulmão ainda está muito debilitado. Se eu tentar correr vou passa mal e posso até ter uma parada respiratória.
Carolina Spricigo: Como está o seu tratamento hoje? Já terminou? Você já está curado?
Gustavo Dudat: Tenho duas manchas no pulmão ainda. Elas podem ser cicatrizes ou novos tumores. Tenho de marcar uma consulta com o cirurgião para me avaliar.
Carolina Spricigo: Claro. Está certo. Tudo a seu tempo, né? Mas tenho certeza de que logo você estará de volta. Se não correndo como antes, com os meninos do Pernas Solidárias.
Carolina Spricigo: 😉
Carolina Spricigo: Mas assim… me conta um pouco da tua história. Com quantos anos você começou a correr?
Gustavo Dudat: Sim. Contarei um pouco de mim, então.
Carolina Spricigo: Qual foi a maior distância que correu?
Carolina Spricigo: Já esteve no pódio? Quantas vezes?
Gustavo Dudat: Tive dois pódios nos 5 km, um nos 50 km, numa prova de revezamento – fiz parte de um sexteto – e um 4º lugar geral numa prova de 22 km. E também amo correr desafio militar. Nesse tipo de prova me dou muito bem. Em todas que participei peguei pódio.
Carolina Spricigo: O que a corrida de rua significa para você?
Gustavo Dudat: Tudo começou com um convite de uma grande amiga que me convidou para correr na equipe dela. Eu gostei da ideia, porque naquele ano ia ter a Corrida do JEC, que era minha paixão. Daí eu treinei durante três meses para perder peso e ganhar resistência física. Faltando poucos dias para a prova minha amiga disse que a prova havia sido cancelada. Fiquei triste, mas havia notado que em três meses de treino na areia, duas vez por dia tinha, dado resultado. Tinha perdido 5kg. Eu tinha 73kg quando comecei a treinar.
Daí essa minha amiga me fez um novo convite. Desta vez, para eu correr uma corrida pela a equipe dela. Aceitei. Corri a Corrida da Natureza pela primeira vez e fiz 5 km. Cheguei em 7º lugar – e a premiação ia até 10º lugar no geral. Foi minha primeira corrida e meu primeiro pódio nos 5 km. Neste dia eu me apaixonei pela corrida. Em 10 meses, tinha perdido 16kg e havia ganhado saúde e qualidade de vida.
Carolina Spricigo: Nooooossa. E muitos amigos, nė?
Carolina Spricigo: Isso foi em que ano, você lembra?
Gustavo Dudat: Eu comecei a correr em julho de 2014. Eu tinha 29 anos. Hoje estou com 31. E sobre conquistas, eu sou um campeão porque ganhei muitos amigos de verdade nas corridas. Amigos que vou levar para o resto da minha vida.

Carolina Spricigo: Que legaaaal
Carolina Spricigo: E quando você descobriu a doença foi um baque. Imagino…. já havia perdido o pai, né?
Gustavo Dudat: É. Eu parei de correr e de treinar em dezembro do ano passado (2015), quando meu pai teve um AVC. Fiquei focado em cuidar dele no hospital. Fiquei com ele de 15 de dezembro até 9 de abril, dia em que ele faleceu. Quatro dias após o falecimento do meu pai eu descobri que estava com câncer.
Carolina Spricigo: Você nunca perdeu a esperança, né?
Gustavo Dudat: Jamais vou perder essa batalha contra o câncer, porque tenho Deus do meu lado e os meus amigos também. Ainda quero correr uma maratona – 42 km – e vou conseguir realizar esse sonho.
Carolina Spricigo: Eu tenho certeza disso.
Gustavo Dudat: Hoje em dia o meu treinador é o Cafu. Faço parte da equipe dele.
Cleiton: exemplo de ser humano
Carolina Spricigo: E como foi quando você recebeu esse convite do Cleiton para a Corrida da Unimed?
Carolina Spricigo: O Cleiton te ligou?
Gustavo Dudat: Ele me mandou uma mensagem me convidando para acompanhar eles na corrida. Eu falei que não podia correr, por causa do meu pulmão. E então ele me ligou e explicou tudo sobre o projeto e como seria a corrida. Eu fiquei muito emocionado, porque foi uma surpresa para mim. Aceitei na mesma hora.
Gustavo Dudat: Foi maravilhoso correr do lado de um anjo como o Cleiton. Ele teve todo o tempo do meu lado hospital.
Carolina Spricigo: Queridooooo. Ele é um amoooooor
Gustavo Dudat: Sim
Carolina Spricigo: Há quantos anos vocês se conhecem?
Gustavo Dudat: Desde 2014
Carolina Spricigo: Certo. E me conta um segredo: por que você chorou na hora da corrida? Foi o vento no rosto?
Gustavo Dudat: Foi maravilhoso sentir o vento no rosto. Também senti naquele momento que eu vou vencer essa batalha. Também lembrei do meu amado pai.
Carolina Spricigo: 😢
Carolina Spricigo: Imagino.
Carolina Spricigo: Imagino como você deve ter se sentido. Foi emocionante. Vi as fotos e fiquei arrepiada…
Carolina Spricigo: Que mensagem você gostaria de mandar para o Cleiton?
Gustavo Dudat: Eu já falei para ele que ele é um anjo em minha vida.
Carolina Spricigo: Ele é.
Gustavo Dudat: Mensagem para o Cleiton… Eu já falei isso para ele. Ele é como um irmão mais velho que Deus me deu de presente nessa vida. Eu te amo, mano, do fundo do meu coração.
Carolina Spricigo: ♥
Carolina Spricigo: Então é isso, menino. Me autoriza a publicar essa história?
Gustavo Dudat: Sem problema, amiga.
Carolina Spricigo: Legal! Certo. Muito obrigada, Gustavo. Vou planejar o texto para os próximos dias. Ok? Assim que eu postar envio o link pra você ler.
Carolina Spricigo: Quanto a mim, desejo toda a recuperação pra você, para que você fique bem logo e que esteja sempre com a gente nas corridas da vida! 😍 Estou torcendo. E rezando.
Gustavo Dudat: Obrigado, de coração
Gustavo Dudat: Obrigado, de coração, amiga.
Gustavo Dudat: Qualquer coisa estou aqui
Carolina Spricigo: Eu também. 😉
Minha mensagem para o Cleiton:
Cleiton. Quisera eu ter metade do amor no coração que você tem. Quisera eu poder/querer me doar assim para os amigos e para os que eu nem conheço. Você é exemplo que deve ser seguido por mim e por todos. É um espelho. Que um dia eu possa me tornar metade do que você é eu já serei infinitamente mais feliz e realizada. Obrigada por proporcionar momentos de emoção como este que o Gustavo viveu. E como o Rodrigo, seu primo, vive constantemente. Você faz o mundo ser melhor. Você nos faz acreditar que um mundo melhor é possível. Você nos faz querer fazer parte de tudo isso. Obrigada. Isso é Natal.
Neste 2017 nos aguarde, porque Fernanda e eu também seremos Pernas Solidárias.
Escrevo este supertextão na noite de Natal para desejar boas festas a todos. Mais fé, mais amor e empatia. Mais ação e menos reclamação. Isso é Natal.




Linda reportagem Carol. Acredito que este é o verdadeiro espírito de Natal.