Desabafo: sobre o autoboicote e a hora de dar um pause

Desabafo: sobre o autoboicote e a hora de dar um pause

Sabem aquela máxima de que quando sabemos todas as respostas vem a vida e muda todas as perguntas? Pois é. Às vezes – acho que na maioria delas – a vida prega uma peça na gente. Para nos desestabilizar. Para nos deixar sem entender nada e rir da nossa cara.

Acontece o tempo todo, com todo mundo. Com o cara que perdeu o emprego na semana que descobriu que será pai; com aquela que estudou para ter as melhores notas e que não conseguiu trabalho e salário decentes; com o garotinho nerd que se apaixonou pela menina mais popular do colégio; com o cara bem-sucedido e atlético que morre depois de ter um treco no coração.

É f***! Resguardando as devidas proporções das tragédias de cada um, queria comentar sobre a minha. Demorei para descobrir a corrida como um esporte que, além de ajudar a manter a forma e melhorar a autoestima, me faz sentir que sou capaz do que eu quiser. Mas como a vida – que é bonita, é bonita e é bonita, sim! – gosta de bagunçar tudo, comecei a sentir muitas dores no quadril – vocês têm acompanhado isso há algum tempo – e fui descobrir que nasci com uma lesão que, por falta de fortalecimento adequado dos músculos, deu as caras e teima em não me abandonar.

Corrida é viver

Corro para me sentir viva. Para sentir o vento no rosto. Corro para me desafiar, para terminar o que começo. Para bater minhas próprias metas. Para saber que eu consigo. Para melhorar meu mau humor. Para sentir meu coração batendo, para me sentir livre. Para ter consciência de que eu sou capaz de fazer o que eu quiser. Porque a corrida é minha terapia, é a minha hora de descansar. É meu momento com os amigos, mas principalmente, meu momento comigo e com os meus pensamentos.

Há cerca de um mês, fui ao ortopedista especialista em quadril. Ele não me disse para parar de correr, mas orientou que eu focasse em exercícios sem impacto, como a natação e o ciclismo, até os exames solicitados ficarem prontos e a cirurgia no quadril ser definitivamente descartada. Tudo isso para evitar a perda de condicionamento físico.

Corrida é autoboicote

Pensei muito antes de escrever sobre isso. Até que, na semana passada, ouvi de quem eu menos esperava que eu preciso parar de me boicotar. Que eu preciso parar de correr e focar no tratamento enquanto ele é possível. E, depois, se der, voltar. Doeu. Muito. Mais que um soco, talvez.

Não gostaria de abandonar minha agenda de corridas, muito menos nossos parceiros, mas especialmente, não gostaria de desapontar aqueles que de alguma maneira se espelham em mim. Eu sei que eu sou exemplo pra muita gente. Tenho consciência disso e me orgulho muito da história que eu construí. Mas é preciso reconhecer: é hora de dar um pause.

Hora do pause

Hora de respirar. De fortalecer, de descansar. Hora de dar um passo atrás para pegar impulso. De ficar na linha de largada e chegada aplaudindo e sentindo orgulho dos que vão continuar a se superar. Sim, porque eu não vou ficar longe. Eu amo correr, mas eu também amo estar nas corridas e vou continuar prestigiando os eventos. Prometo que logo, logo, teremos novidades.

Vou pausar os treinos de corrida, mas vou deixar a imagem das corridas congelada nos melhores sorrisos, nas melhores lembranças. Logo estarei de volta para um novo play. para um recomeço. A vida nos prega peças. Vira tudo de cabeça para baixo. Nos tira o chão. E eu não sei qual é o sentido disso tudo. Espero, um dia – e que ele seja breve – poder rir de tudo isso. Recuperada e, de preferência, correndo uma meia maratona. Feliz. Ao lado de quem eu amo, fazendo o que eu amo. Sem dor. Livre, enfim.

Carolina Spricigo

Jornalista, assessora de imprensa, gestora de marketing digital, gestora de conteúdo, blogueira do Mulheres na Pista, corredora e mãe do Bernardo. Feliz.

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