Volta à Ilha, quando perder tem gosto de vitória

Volta à Ilha, quando perder tem gosto de vitória

Como falar desta prova?

Pra começar é a maior prova de revezamento da América Latina. Foram quase 4000 atletas revezando os trajetos para completar os 140 km de prova. É na ilha da magia (dispensa comentários) e exige muita técnica, treino e preparo. Sim, estou falando da 23 Revezamento Volta à Ilha (http://www.ecofloripa.com.br/voltailha).

Minha vez na Volta à Ilha

Já tinha ouvido falar dela diversas vezes em conversas com outros corredores e ela estava na minha lista de desejos, até que no ano passado a Gold Runners foi sorteada para participar e eu fui convidada pra fazer parte da equipe mista.

Diferente de uma prova convencional, estava bastante nervosa pois estávamos correndo em uma categoria que exigia um pace médio de 6:00/km, independente do terreno e havia alguns trajetos com dificuldade alta, conforme o regulamento.

Esta prova exige muita preparação, não só treino, mas também é preciso montar uma logística para a troca de atletas conforme os pontos de troca. Sem contar a organização de alimentação e hidratação, pois são 14 horas dentro de uma van.

Volta à Ilha

E é claro, o psicológico e o físico para conseguir cumprir com os trechos dentro dos tempos propostos. Se você quer fazer esta prova, prepare o bolso, pois você terá todos estes custos: inscrição, hospedagem, alimentação, suplementação, hidratação e logística (aluguel de van).

Dito isto, algo tem que compensar né? E é claro que compensa, o lugar é lindo e o sol estava presente o dia inteiro iluminando os belos trajetos da prova. E vou te dizer, era um trajeto mais lindo que o outro. Praias e mais praias, com diferentes cenários… até quando a gente corria no asfalto, tinha o marzão do lado pra dar aquele encanto.

Olha as fotos, não tem como não ficar com vontade de correr em um lugar assim…

Começamos bem, cumprindo os trajetos dentro do pace planejado, em alguns trechos ganhando alguns minutos. Sabíamos que os primeiros trechos seriam decisivos para chegar no tempo de corte.

A cada ponto de troca, era a descoberta de mais uma praia linda e a comemoração da chegada da equipe para seguir o revezamento. O sol foi subindo e o calor pegando, a hidratação era um fator superimportante.

Volta à Ilha

Íamos repondo a água e o gelo pra termos tudo à mão. Como acordamos às 4 horas da manhã, as horas pareciam passar mais devagar. Eram 10 horas da manhã e tínhamos a sensação que já era meio dia.

O espírito de equipe conta muito em uma prova como esta. Quando eu fiz o meu trajeto, eu já tinha lido e sabia mais ou menos onde seria. Mas quando começou os morrinhos é que eu tive real noção do que estava por vir… Fui forte (dentro da minha capacidade) e queria fechar no melhor tempo possível (e eu não sou rápida).

Quando estava na terceira subida, o calor já estava pegando e o desgaste também e pra minha surpresa, a van estava estacionada, a galera me deu água e isotônico, muitas palavras de incentivo que fizeram toda a diferença pra sprint final.

Achei que as horas demorariam pra passar, afinal ficaríamos um dia inteiro em uma van, mas a dinâmica da prova mostrou outra coisa…

Logo que um corredor largava, já íamos pro ponto de troca, sempre torcendo e acompanhando os tempos. Se era um trecho mais longo, reabastecíamos água e gelo. A primeira metade da prova passou voando, os trechos eram mais curtos e a troca de corredores era constante. Foi aí que veio os piores trechos e a pior logística.

Foi nossa primeira Volta a Ilha e fomos apenas com o carro 1 (van), quando começamos a ir pro Sul da ilha o trânsito foi ficando pior. No posto 11, chegamos depois do corredor, que ficou esperando pra fazer a troca. O mesmo pro trecho 13. Isso foi crítico, em uma prova com linha de corte, cada minuto vale ouro.

Volta à Ilha

Ao terminar o trecho 10, um dos nossos corredores estava com muita dor na coxa e não conseguiria fazer mais um trecho que ele tinha para completar. Tivemos que mudar a estratégia e também bateu um desespero, pois não tínhamos substituto.

Enfim, chegou minha vez, largada na Armação, praia linda, fiquei impressionada com a beleza, mas a areia era dureza! Bem em uma areia fofa, agora pensa que é melhor correr na água do que na areia, de tão fofa que ela era. E assim foram quase 4 kms.

Passei alguns corredores neste trajeto de praia. Fiquei muito feliz. Mas foi quando cai no asfalto, que era a hora de soltar a perna, a minha perna não foi. Não conseguia aumentar a velocidade e naquele ritmo não fecharia no pace de 6.

Volta à Ilha

Quando estava chegando perto do posto de troca, vi o corredor que ia seguir para o pior trecho de chinelo. Pensei que tinham trocado o corredor. Foi aí que eu ouvi, não dá mais, o posto fechou.

Fiquei muito triste, muito mesmo. Me senti super culpada. mas logo o pessoal foi me explicando que na largada do meu trajeto os Staffs recomendaram que seguíssemos pra largada pra pegar a medalha. Não adiantava continuar, não haveria mais staffs e os próximos postos também estariam fechados.

Foi um consenso seguir pra largada, ainda mais com a recomendação da equipe da prova.

Perder para ganhar

Chegamos juntos, felizes pela experiência maravilhosa, mas com vontade de aprender com os erros deste ano e ano que vem estar lá, fortes para completar todos os trajetos!Volta à Ilha

Abaixo o texto de uma das corredoras, que conseguiu expressar bem o que sentimos:

“Muitos me perguntaram, “em que lugar vocês ficaram”, “quanto tempo terminaram”, perguntas habituais quando estamos falando de esporte, onde existe uma certa competitividade entre os atletas. Bom, vamos lá, não foi o caso por aqui.
Nos inscrevemos com o objetivo de se divertir, dar o nosso melhor, ganhar experiência, terminar a prova em boas condições físicas e acima de tudo mostrar companheirismo.
A cada chegada era uma festa, a cada largada era outra.
Foi uma experiência incrível, cada Gold Runner mostrou superação, até mesmo nos momentos de dor onde um de nossos atletas acabou se machucando impossibilitando assim, concluir o seu percurso.
Mas, pra nós o que importava era chegar lá, receber a medalha de reconhecimento de todo esforço ali vivido. Levar pra casa uma lembrança dessa Prova maravilhosa, e dizer com todo orgulho, eu fiz parte de tudo isso.
Sim, fomos desclassificados no tempo, mas nada se compara a gratidão de ver a felicidade de cada um em passar no pórtico. Realmente foi de arrepiar.
Fizemos aquele caminho ao final da prova, sem se preocupar com pace, classificação, kms, ou competição.
Os nossos sinceros parabéns pra todos que participaram e que realmente conseguiram dentro do tempo concluir os 140km com sucesso.
A única e exclusiva razão para passarmos ao pórtico mesmo após nossa desclassificação foi de: OBRIGADA VOCÊ MERECE PASSAR POR AQUI, TODOS MERECEM PASSAR POR AQUI E FAZER PARTE DESTA EQUIPE .”

Fernanda Lüttke

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *